
Conversa de elevador
Em meio à correria de nossas rotinas, costumamos ser presenteados com boas e instigantes conversas. Com o condão de provocarem a reflexão, muitas delas podem até mesmo incitar em nós a revisão de nossas opiniões e de nossos atos. Mas existem também aqueles momentos mais descontraídos, perfeitos para a descontração de um bom chiste ou para a leveza de um bom causo. Afinal, a vida não é feita apenas dos acidentados e pedregosos terrenos da filosofia e da política.
Também importantes são aquelas conversas mais protocolares, as quais convencionamos serem necessárias e indispensáveis para uma saudável convivência em sociedade. Logo, não ignoro que a superficialidade e a frieza das convenções escondem, por vezes, um propósito social maior. Com frequência, a harmonia e a concórdia requerem pequenos sacrifícios de cada um de nós em nome da coletividade. Mesmo assim, a rabugice de minha precoce velhice não me deixa calar e consentir. E é a partir dela que me insurjo contra um tipo especial de interação social protocolar: a insensível conversa de elevador.
Antes de tudo, advirto que quem aqui vos fala não é um misantropo! Palavra recentemente descoberta por quase todos os mortais que não se dedicam à lexicografia, a tal misantropia descreve uma aversão à sociedade. Ainda que a fadiga social possa dar suas caras de vez em quando, creio estar bem distante dessa repulsa melancólica e niilista pela sociedade. No entanto, com a famigerada conversa de elevador não há meio-termo tampouco margem para acomodação. Julgo difícil resistir passivamente a um rito que foi, de modo arbitrário, criado para dar a aparência de urbanidade a um mero encontro casual entre duas ou mais pessoas.
— Bom dia! Tudo bem? — saúda-me por volta das 7h uma cerimoniosa e bem-intencionada vizinha.
Imaginem vocês o que seria dessa situação se, abrupta e levianamente, eu decidisse romper o protocolo previamente estabelecido. Dessa forma, eu poderia responder-lhe com um rol de reclamações que perturbam a cabeça de qualquer pobre trabalhador que se obriga a sair de casa numa modorrenta e chuvosa manhã de segunda-feira. Obviamente, minha gentil vizinha não buscava saber como eu estava nem se eu precisava de alguma ajuda.
Então, qual seria a utilidade prática de sua pergunta? Pergunta retórica! – dirão os mais sociáveis. Todavia, não seria mais honesto apenas desejar-me um bom dia? Honesto e polido, diga-se de passagem!
— E esse tempo? Será que chove? — arrisca um simpático e tagarela desconhecido.
De fato, a maldita etiqueta dos elevadores permite extravagâncias desse tipo. Antes de sair de casa, eu até costumo verificar qual é a previsão meteorológica para as horas seguintes. Porém, a inconstância do tempo em uma primavera marcada por um tal El Niño dificulta o trabalho dos mais competentes meteorologistas, sobretudo em uma cidade como São Paulo. Se a missão dada a quem se dedica profissionalmente a compreender as minúcias do tempo e do clima pode resultar, não raramente, em prognósticos errados, quem sou eu para dizer se choverá ou esfriará nas próximas horas?! Jamais aceitaria o risco de exercer, ilegalmente, uma profissão para a qual não estou capacitado.
Entretanto, nada supera um tipo especial de diálogo que usualmente bordeja o limiar do tensionamento social. Quando o conteúdo de tal interação envolve questões políticas, ainda que implícitas, escuto o forte e alarmante som das trombetas da prudência. Em nome da harmonia social, convém não esticar ainda mais essa corda puída e desgastada. Se os cidadãos da Grécia Antiga debatiam sobre política nas famosas praças públicas chamadas de ágoras, por que eu entabularia uma arriscada conversa em espaço tão exíguo como um elevador?
— E agora até os EUA resolveram taxar nossos produtos, né!? — provoca-me um transeunte que costumo ver a cada dois ou três dias no mesmo elevador.
Acreditai, senhoras e senhores! Não vale a pena tentar deduzir a posição política do interlocutor para amenizar as diferenças ou conquistar a simpatia dada pelas convergências. Porquanto a cilada pode estar armada justamente sob as vestes da ambiguidade, mais vale a contenção do que a exposição desnecessária. Se algumas regras precisam ser respeitadas para que a sociedade continue funcionando a contento, louvado seja o respeito à sagrada conversa protocolar e insossa de elevador!
— Pois é… Mais essa! Complicado, né… — é o que devolvo, relutantemente, a meu impertinente interlocutor.























